sábado, 31 de dezembro de 2011

Como dar sentido à vida neste mundo deprimente?

Uma resposta está no livro Um Mundo Iluminado - Uma leitura dos clássicos à procura de um sentido num mundo secular, escrito por Hubert Dreyfus e S. D. Kelly, tr. F.G., Lua de Papel, 2011.
Para começar, devemos procurar resquícios das experiências do sagrado que iluminaram o nosso passado. Encontraremos essas centelhas do sagrado relendo os grandes clássicos. Homero, Ésquilo, Dante e Melville são os principais privilegiados. David Foster Wallace serve para introduzir a análise crítica do "nosso niilismo contemporâneo". Através dessas leituras propõem-se os autores reconstruir algum sentido glorioso que oriente e ilumine as nossas vidas.

Mas por que está o mundo tão deprimente? Segundo os autores, o grande mal foi a modernidade com a sua ideia de indivíduo capaz de descobrir leis em si próprio e para si próprio: "a nossa concentração em nós mesmos enquanto seres isolados e autónomos teve o efeito de banir os deuses" (243). Aquilo que hoje precisamos é de desenvolver "competências para responder aos múltiplos sentidos do sagrado que permanecem, ignorados, nas margens do nosso mundo desencantado" (244).

É no desporto que os autores vêem hoje o sentido de união que antes acontecido nos festivais sagrados. E é a através do discurso de despedida de Lou Gehrig que se explora o lado religioso do desporto contemporâneo.



"Há momentos nos desportos - tanto ao praticá-los como ao assistir a eles -  perante os quais acontece algo de tão poderoso que cresce diante de nós como uma presença palpável e nos arrasta como sobre uma poderosa onda. Nesses momentos, não há lugar a um distanciamento irónico face ao acontecimento. é nesses momentos que o sagrado brilha." (215)

Quatro aspectos revelam a presença do sagrado no desporto. 1) "nos momentos realmente extraordinários acontece algo de esmagador"; infelizmente esse momento não dura para sempre, é "passageiro" e "situacional". E não é esta característica de que tudo nos foge das mãos o que está na origem da vida deprimente? Pode ser, mas os autores vêm esse aspecto como algo positivo. 2) Essa característica do sagrado liga-nos com "a concepção do real dos gregos homéricos", liga-nos à physis. A tradução apresentada do termo grego é "sibiliação" (wooshing), "a sibilação do cintilante Aquiles no meio da batalha, ou do erotismo esmagador na presença de um estrangeiro radioso como Páris; a sibilação de uma rocha no mar tumultuoso que impele a mão de Ulisses a agarrá-la. Estes eram os momentos plenos de luz da realidade no mundo de Homero. E a sibilação é o que acontece também no contexto dos grandes momentos do desporto contemporâneo." (222). 3) "o fenómeno physis não é exclusivo do desporto", está presente também noutros momentos como, por exemplo, no discurso de Martin Luther King. 4) Há algo de perigoso no fenómeno em apreciação. É que nesses momentos perdemos o controlo de nós mesmos, deixamo-nos levar, sem escolher o que fazemos. Este é o alerta que vem do iluminismo e ele tem razão de ser pois, segundo os autores, "vai uma distância muito pequena entre erguer-se com o público de um jogo e erguer-se com a multidão de um comício de Hitler." (225). Como remédio contra esses perigos, são-nos receitadas "outras práticas sagradas na nossa cultura". Devemos recuperar "o estilo poiético" que se manifestava "na capacidade do artífice de fazer as coisas surgirerm no seu melhor". Devemos focar-nos nas capacidades poéticas e, desenvolvendo as perícias adequadas, veremos o mundo de outra maneira: "a tarefa do artífice não é criar o sentido mas antes cultivar em si mesmo a capacidade de discernir os significados que já estão aí." (230). Devemos afastar a máquina e regressar ao artesão. É bonito, claro, mas como se faz isso ninguém parece saber. E isso por si só não chega: "Até mesmo os mestres no ofício de construir rodas de carruagens com reverência pela terra foram arrastados pelo poder da retórica de Hitler." O que é preciso é juntar às perícias a "capacidade de ordem superior para responder a distinções importantes entre maneiras perigosas e benignas de se deixar arrastar. A pessoa que adquiriu essa capacidade sabe que nem sempre é adequado fugir das multidões (...) tal capacidade permite-nos cultivar uma forma proeminente do sagrado disponível na cultura de hoje. A meta-poiesis, como lhe poderíamos chamar, consegue resistir ao niilismo, mediante o reapropriar do fenómeno sagrado da physis, mas cultiva a capacidade para resistir à physis quando esta se apresenta na sua forma fanática e odiosa." (233). Uma boa dose de elitismo fica sempre bem!

"Será que enfrentamos, pois, uma vida de actividade moral aborrecida, mas madura, por um lado, e, por outro, uma vida de actos arriscados, e talvez odiosos, mas dotados de sentido? Não, as apostas são ainda mais altas. O abraço metafísico iluminista do indivíduo autónomo não conduz somente a uma vida aborrecida. Conduz quase inevitavelmente a uma vida impossível." (225).

Estamos perante uma posição que rejeita liminarmente  a modernidade e a tecnologia - esta facilita-nos a vida mas torna-nos  mais pobres. Simplesmente já não sabemos nada. Deixamos essa parte para as máquinas. Como solução, é-nos dado o sentido de comunidade na partilha de algo grandioso. Como guias de auto-ajuda oferecem-nos os clássicos e o desporto contemporâneo. Há muito por onde discordar, mas o facto é que as interpretações dos clássicos oferecidas no livro são muito boas e, tirando alguma presença excessiva da filosofia heideggeriana nas páginas centrais do livro, trata-se de um dos melhores ensaios recentemente publicados entre nós. Acresce ainda que a tradução é muito boa.

(LFB)

Sam Rivers (1923-2011)

"Sumo é o desporto nacional do Japão. Parte religião, parte ritual. A origem deste desporto está nas competições de força que se realizavam para entreter os deuses durante os festivais. O nível mais elevado - no Japão moderno o sumo profissional continua a acontecer sob um telhado suspenso de um templo Shinto - e o ringue são abençoados, antes de cada torneio, por um sacerdote. Os torneios estão envoltos em pompa e cerimónia. As árbitros assemelham- se a sacerdotes. Antes de cada luta, os rikishi [atletas] atiram sal para o ringue num ritual de purificação e o grande campião - o yokozuna  - enquanto realiza as elaboradas cerimónias de entrada usa roupas brancas, estilizadas a partir das usadas nos templos Shinto.
Os combates raramente duram mais de trinta segundos. É um show dos diabos. Explosivo e, no entanto, contido. No sumo não se dividem os atletas em categorias de peso, o que significa que um pequeno meia caneca (halfpint) de noventa quilos pode defrontar um gigante de duzentos e cinquenta quilos e os gigantes nem sempre ganham. O sumo requer um centro de gravidade baixo - daqui as dietas forçadas e as grandes e redondas barrigas - mas os rikishi pequenos, rápidos e mais espertos podem entrar, agarrar o cinto e perturbar homens muitos maiores que caiem como sequóias derrubadas."
(57-58)
(Will Ferguson, Hokkaido Highway Blues - Hitchhiking Japan, Cannongate, Abridged ed., 2003. Tr. LFB)





quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Do outro lado do estacionamento está uma roda gigante, empurrada pelo seu próprio momentum, gira com o mar e o céu como pano de fundo. O truque de qualquer roda gigante está em começar a andar e depois manter a rotação. O Momentum é a única força capaz de derrotar simultaneamente a inércia e a gravidade. No espaço, os satélites não órbitam o planeta. Eles estão em queda, continuamente em queda, levados, pelo ângulo da sua descida, para além do arco da Terra.  E o que é o andar em si senão simplesmente manter uma queda? Para colocar um objecto em movimento é necessário um grande esforço, mas depois de ele estar em andamento torna-se cada vez mais fácil mantê-lo. Esforçamo-nos para pôr o carro a trabalhar, mas depois de ele estar a andar o esforço é quase imperceptível. É mantê-lo em andamento com o seu próprio momentum. Viajar é uma questão de manter o momentum. Resistir à gravidade. Em queda livre para lá do horizonte, caindo, nunca aterrando.
(p.23)

O professor era claramente um perito na sua área. A sua mulher mostrou-me um livro que ele escreveu e, sempre que eu o cumprimentava, ela abanava a cabeça fechando os olhos em sinal de concordância profunda. Ela, mais do que sua mulher, era sua fã. Infelizmente não consigo levar um qualquer careca a sério quando ele unta o cabelo em longos fios mutantes e o penteia por cima da cabeça. E eu estava no banco de trás, o que não ajudava, pois o que eu via era um ovo cozido. Em vez de prestar atenção à vida social dos macacos japoneses, eu estava mais fascinado com a própria estratégia do pentear-por-cima. Será que essas pessoas pensam realmente que conseguem enganar alguém? Será que não têm espelhos? Ou será que os espelhos é que são o problema? Em frente do espelho da casa de banho deve ser o único modo de o estilo de pentear-por-cima parecer remotamente natural E mesmo assim, quantas vezes é quer nós vemos pessoas com o cabelo a crescer-lhes horizontalmente por cima da testa? Os japoneses, que têm um certo charme para descrições cómicas, referem-se ao estilo de pentear-por-cima como a cabeça código-de-barras, referindo-se aos preços com códigos-de-barras dos supermercados. Sentado no banco de trás, com esta vista desfavorável de um professor (pausa) da Universidade de Tóquio, apetecia-me passar a mão ligeiramente por cima da sua cabeça e ver que tipo de preço surgiria.
«E portanto, poderá deduzir o quanto a vida social dos macacos é tão importante,» disse ele em conclusão.
«Absolutamente», disse eu."
(p.31-32)

(Will Ferguson, Hokkaido Highway Blues - Hitchhiking Japan, Cannongate, Abridged ed., 2003. Tr. LFB)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Bongo Fury

Zappa (1940-1993) and Havel (1936-2011)

"Em Janeiro de 1990, menos de um mês depois de Václav Havel ter sido eleito presidente da Checoslováquia, mas muito antes de ele e outros democratas estarem seguros no poder; mesmo antes da polícia secreta Comunista passar a estar sob controlo democrático (...), num período em que rumores de golpes Comunistas contra-revolucionários pontuavam todas as conversas telefónicas e num momento em os bravos estudantes que deram início à Revolução de Veludo retornavam, silenciosamente, à conformidade induzida pelo medo; num momento em que os exaustos Praguenses se recusam a assinar mais petições radicais, só no caso de - no sinistro momento dos trémulos primeiros meses  da Revolução do Bloco Oriental, eis que o distinto Frank Zappa visita Praga.
Zappa estava a caminho do parlamento checoslovaco para se encontrar com o Presidente Havel, um fã de longa data de Bongo Fury e outros álbuns. No bolso levava sugestões sinceras - turismo, telefones celulares e uma coisa chamada tecnologia magnetohidrodinâmica - para salvar a Checoslováquia de décadas de estagnação económica. Cinco mil fãs (na estimativa do próprio Zappa) esperavam-no no aeroporto. Repórteres televisivos de Praga aguardavam-no equipados para gravar a histórica chegada. E por mera sorte, os jornalistas dão de caras com outra distinta personagem americana - o embaixador americano dos Estados Unidos, que estava de partida. O embaixador não era nem mais nem menos do que Shirley Temple Black, a princesa infantil e com covinhas dos filmes, que agora estava crescida. Que excitação!  Americanos reais, saídos directamente de Hollywood.  Os repórteres correram para a embaixadora dos Estados Unidos e pediram-lhe que comentasse a iminente chegada do Sr. Frank Zappa.
De um ponto de vista americano, isso era um bizarro - ou, de qualquer modo, um estrangeiro - momento na Revolução do bloco oriental. Nenhum americano, no seu perfeito juízo, sonharia sequer fazer perguntas a Shirley Temple sobre Frank Zappa. Os americanos sabem que os Estados Unidos são um país dividido, em guerra consigo próprio desde meados dos anos sessenta, senão antes, lascado em cultura e contra-cultura, direita e esquerda. À excepção de que persistem, como uma guerrilha que se ulcerou na selva até à segunda ou terceira geração, quem poderá dizer, de facto, que divisões são essas? (...)
A transmissão televisiva da chegada sensacional de Frank Zappa ao aeroporto, no meio da revolução, passou, conjuntamente com imagens sobre o que a embaixadora dos Estados Unidos conseguiu dizer, nessa noite na TV de Praga. Como me foi infinitamente recontado por todos os checos que encontrei nessas revolucionárias e assustadoras semanas, a Sra. Black ficou horrorizada, mesmo humilhada. A cabeça afastada da câmara. A face enfiada nas mãos. Mortificação televisiva! A música do Sr. Zappa aparecia como um sol distante que nunca tinha lançado um raio de luz na praia solitária da Sra. Black. A embaixadora dos Estados Unidos voluntariou-se afirmando que sabia algo sobre a filha do Sr. Zappa: Moon Unit. A Checoslováquia estava consternada. As pessoas não tinham outra forma de classificar o comportamento rude da embaixadora dos Estados Unidos a não ser classificando-o de ignorância cultural, vinda de alguém a quem faltava a autoconfiança para gabar-se, perante toda a Europa Central, de um dos mais finos filhos da América, o brilhante Zappa, uma figura mundial no campo da música popular."


(Paul Berman, A Tale of two Utopias - The political Journey of the generation of 1968, Norton, 1996, pp. 195-197. Tr LFB.)




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Honkytonk Man / A Última Canção, Clint Eastwood (1982)



Um músico aventureiro que vê o fim da sua vida aproximar-se - por causa da tuberculose - inicia uma viagem em direcção ao Grand Ole Opry na tentativa de mostrar ao mundo as suas canções. Nessa viagem - do Oklahoma para Nashville, Tennessee - leva consigo um jovem sobrinho que assim se inicia nas peripécias da vida americana dos anos 30.


A sugestão do filme vem do devaneios.


(LFB)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quais as nossas prioridades, em termos de resolução de problemas mundiais?











Bjorn Lomborg é um ambientalista céptico e autor do livro The Skeptical Environmentalist: Measuring the Real State of the World (2001) de que voltarei a falar. Conheci-o no Abrupto.

(LFB)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Orientação vocacional


“Se eu ficasse apenas com os meus próprios recursos - se eu não precisasse de me preocupar em ganhar a vida ou em saber o que os outros pensam de mim - o que é que me atraía mais? (...) O que nós precisamos de fazer é ver o nosso futuro e o futuro das nossas crianças, o futuro dos nossos colegas e da nossa comunidade com a simplicidade infantil que os prodígios exibem quando os seus talentos surgem pela primeira vez.
Trata-se de, em vez de abordá-los com um modelo sobre quem serão, olhar nos olhos das nossas crianças e tentar compreender quem eles são realmente. (...) Que tipo de actividades querem eles realizar voluntariamente? Que tipo de aptidão sugerem? O que é que os absorve mais? Que tipo de questões colocam e  que observações fazem?” 
(Ken Robinson, The Element - How Finding your passion Changes Everything, Viking, 2009, pp. 102. Trad. LFB)

"
A criança
é feita de cem.
A criança tem
centenas de línguas
uma centena de mãos
uma centena de pensamentos
cem maneiras de pensar
brincando e conversando
cem sempre cem
maneiras de ouvir
admirar, amar
uma centena de alegrias
para cantar e compreender
uma centena de mundos
para descobrir
uma centena de mundos
para inventar
uma centena de mundos
para sonhar.
A criança tem
centenas de línguas
(e mais cem, cem, cem)
mas roubaram-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
separaram a cabeça do corpo.
Disseram-lhe para:
pensar sem as mãos
fazer sem a cabeça
ouvir e não falar
compreender sem alegrias
amar e maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Disseram-lhe para:
descobrir o mundo que já existe
e das centenas
roubaram-lhe noventa e nove.
Disseram-lhe
jogar e trabalhar
realidade e fantasia
ciência e imaginação
o céu e a terra,
razão e o sonho
são coisas
que não andam juntas.
Disseram-lhe
que as cem não existem.
E a criança diz:
Nem pensar. As cem existem.

"

(Loris Malaguzzi,  fundador do método de educação pré-escolar conhecido como Escola Reggio; in Ken Robinson, The Element - How Finding your passion Changes Everything, Viking, 2009, pp. 242-243. Trad. LFB)

sábado, 3 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

João Magueijo

"Acontece-lhe a tentação de embarcar em especulações de ordem filosófica a partir das investigações científicas que faz?

Só quando sou obrigado a isso. Às vezes acontece mas em geral evito.

Evita porquê? 

Porque sou físico. Estou mais interessado em arranjar uma teoria física do que estar a discutir filosofia.

Sendo ateu alguma vez se lhe colocou a questão religiosa no trabalho que faz?

É completamente indiferente ser ateu ou não ser. Não tem nada a ver com o facto de ser cientista.

Claro, mas agora já estamos fora do âmbito científico; estamos no âmbito filosófico e metafísico.

Não acredito em Deus por razões filosóficas, pessoais e humanas. Mesmo que a física provasse a existência de Deus, não devíamos acreditar em Deus.

Porquê?

Porque acho que faz mal. faz mal à saúde, à nossa História, faz mal a tudo. Não sou dogmático mas penso isto, profundamente. O ser ateu nada tem a ver com a ciência. Aliás, isto nem é ser ateu, é ser antiteísta: é ser mesmo contra a ideia de Deus. Tenho muitos amigos religiosos e não vou ser evangélico a este respeito. Tentar provar que Deus não existe com ciência é tão estúpido como usar os argumentos criacionistas. Isto é uma escolha pessoal humana."

Excerto da entrevista de Carlos Vaz Marques a João Magueijo, Revista Ler, nº107, Novembro de 2011, pp.86-87.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

sábado, 26 de novembro de 2011

"Durante os piores momentos da seca da década de oitenta, o meu pai possuía cerca de trinta cabras. A origem do rebanho fora uma cabra com uma pata partida que vira no mercado. Comprara-a para lhe tratar do ferimento, mas, quando a pata ficou curada, achou que devia ter companhia e comprou um bode. Partindo daí, chegou às trinta, e não lhe trouxeram nada mais além de trabalho árduo e mágoa.
O período da seca foi terrível para quem viveu numa quinta. Vacas e ovelhas eram abatidas e enterradas em valas porque não havia nada com que as alimentar. (...) Quando o meu pai ficou sem outra forma de alimentar as cabras, cortou a erva na berma da estrada com uma gadanha (...)
Ocasionalmente, matava uma cabra para comer, mas matava-as sobretudo para alimentar os cães. Tinha muito pouco dinheiro para comprar carne e tanto ele como a mulher viviam das suas pensões de reforma, uma boa parte das quais era usada para pagar as contas dos veterinários. Quando a minha filha Eva soube que por vezes matava as cabras, sentiu-se incomodada. Sendo uma amante dos animais, gostava de visitar o meu pai porque havia quase sempre pintos, patos pequenos ou bezerros. Por vezes, um deles estaria abrigado na cozinha, doente e a precisar de calor. «Como consegue fazê-lo?», perguntou-me. Referia-se à forma como ele, entre todas as pessoas, podia ser capaz de tal acto quando se preocupava tanto com o seu bem-estar. Perguntei-lhe se conhecia ou ouvira falar de alguém que fosse tão bondoso para os animais como o seu avô. Respondeu-me que não.
Não pretendi que esta conversa com Eva respondesse às questões que lhe ocorressem sobre se era ou não justificado matar animais para comer. No entanto, esperei que aprendesse alguma coisas sobre o que significa matá-los. Quis saber como era possível que o avô pudesse preocupar-se tanto com os animais e ao mesmo tempo matá-los, matar os mesmos animais por que trabalhara tanto e pelos quais prejudicara a sua saúde. A sua primeira reacção foi pensar que o facto de matar animais mostrava que se importava menos com eles do que pensara. A pergunta que lhe fiz fê-la perceber que tal não abalava necessariamente a compaixão que sentia por eles.
Instintivamente, Eva soube que não se podia limitar a dizer que, se o meu pai matava animais, então, a sua compaixão por eles não poderia ser genuína. Afinal, de que forma aprenderemos a reconhecer a compaixão e os seus limites se não for através de uma reflexão sobre exemplos concretos? Creio que foi a comunhão do meu pai com o mundo natural, a piedade que sentia pelos males que lhe eram infligidos pelos seres humanos, que fez com que o seu exemplo marcasse Eva. Mas, para que a autoridade do exemplo fosse justificada, a sua compaixão teria de ser complementada por uma compreensão do que significa matar um animal.
Existem pessoas maravilhosas, pessoas cuja compaixão é tão profunda como era a do meu pai, que acham moralmente impossível matar um animal, sendo essa percepção inseparável da consciência do que significa matar um animal para comer. No entanto, o seu exemplo não poderá, em minha opinião, ser aplicável ao meu pai. Não conheci ninguém que apreciasse de igual forma a generosidade com que os animais se entregam a nós e que sentisse maior gratidão pela graça que conferem às nossas vidas. Por vezes, consideramos algo moralmente impossível, mas não pensamos que as pessoas que consideram a mesma coisa possível estejam enganadas ou que possuam morais deficientes. Até mesmo exemplos de autoridade inegável e pura podem atingir-nos de formas diversas. Portanto, acerca deste asunto, qualquer coisas que possa dizer será sempre subjectiva."

(Raimond Gaita, O cão do filósofo, (tr. R.C.) Casa das letras, 2007, pp. 217-218.)


Assim termina este livro sobre a nossa relação com os animais e sobre a forma como atribuímos "sentido" (meaning, no seguimento do Wittgenstein das Investigações Filosóficas) às relações complexas que estabelecemos com pessoas e animais. O autor defende que a moralidade da nossa relação com os animais é secundária em relação ao sentido que construímos no mundo. Sendo que este sentido varia muito com as experiências das pessoas, com as suas emoções e com aquilo que vai no seu coração, com a sua cultura. Por conseguinte, não pode haver uma resposta única à questão de como tratar os animais. Gaita coloca-se, no debate sobre a ética animal, numa posição extravagante, uma vez que é contra a retórica dos direitos que considera uma ilusão. Acredita que as palavras que usamos devem transportar a força da obrigação de uma certa acção, caso contrário, de nada valem. Defende que "quase tudo o que a vida tem de importante ocorre no reino do sentido" (p.115). Parte da nossa compreensão desse sentido é possibilitada pela literatura, por essa forma de usar a linguagem "na sua plenitude" (Gaita cita Cora Diamond, uma autora a que também é preciso dar atenção) onde forma e conteúdo são inseparáveis, mas não é por isso, defende também o autor, que o texto literário deixa de ter valor cognitivo.
Apesar de considerar o livro interessante e as suas ideias valiosas - sobretudo porque parte de uma concepção ética baseada na experiência, fundamentada na linguagem e e na literatura - foi algo penoso lê-lo e isto devido à fraca tradução que, parece-me (não consultei o original), torna muitas passagens do livro dificilmente compreensíveis (como se comprova pelo texto acima transcrito). É um daqueles livros de filosofia que é facilmente estragado por uma má tradução. Começando logo pelo título que em inglês é: The Philosopher's Dog: Friendships with Animals. Em português não aparece a 'amizade', escondendo-se assim  a tónica que o autor coloca na questão das relações para explicar a moralidade. É pena.

A melhor citação que o livro contém é a seguinte, retirada da autobiografia de Pablo Casals:

«Ao longo dos últimos oitenta anos, comecei cada dia da mesma forma. Não se trata de uma rotina mecânica, mas de algo essencial à minha vida quotidiana. Sento-me ao piano e toco dois prelúdios e fugas de Bach. Não consigo conceber não o fazer. É uma espécie de bênção da casa. Mas não é esse o único significado que lhe atribuo. É uma redescoberta de um mundo que tenho tido a felicidade de integrar. Preenche-me com uma percepção da maravilha da vida, com um sentimento de incrível assombro perante a condição humana...
Não houve um único dia na minha vida em que não tenha olhado com espanto renovado para o milagre da natureza» (p.145)

(LFB)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

MEIO DIA

Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra 

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida


Livro Sexto (1962)

domingo, 20 de novembro de 2011

the yakuza, Sydney Pollack (1974)

É tudo uma questão de giri.
Segundo Ruth Benedict - no excelente livro que escreveu sobre o Japão intitulado The Chrysanthemum and the Sword - giri refere-se a uma categoria de obrigações; "dívidas que terão que ser pagas com equivalência matemática em relação ao favor recebido e existem limitações temporais" (p.116). 














E de onde terá vindo aquele pontinho vermelho?

A sugestão do filme vem, de novo, do devaneios.
 (LFB)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A diferença entre familiares e amigos é que os familiares dos nossos familiares continuam a ser nossos familiares enquanto os amigos dos nossos amigos não são necessariamente nossos amigos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Prescrição de medicamentos por DCI

Na sequência do Prós e Contras de hoje, em que os bastonários da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Farmacêuticos foram convidados a discutir a questão da prescrição obrigatória por Denominação Comum Internacional (DCI) e as condições em que está a ser legislada actualmente, não resisti a dar a minha opinião sobre o assunto.
 
Antes de mais, eu sou a favor da prescrição por DCI e da atribuição de liberdade de escolha e responsabilidade ao utente, desde que haja conhecimento, condições de segurança e confiança que o permitam.
Infelizmente continua-se constantemente a tentar dizer que, como os genéricos em geral são óptimos, não se pode usar argumentos baseados em casos esporádicos para contrariar a prescrição por DCI. Discordo em absoluto. A troca cega por qualquer genérico de cada princípio activo deve ser permitida apenas se estivermos certos de que todos os genéricos são seguros e equivalentes ao medicamento originalmente receitado e também entre si! Dado que notoriamente não se tem assegurado isso, devido quiçá à existência de quantidades ridiculamente grandes de genéricos e à falta de controlo do infarmed na sua introdução no mercado, isto não pode acontecer. Ou o infarmed passa a funcionar, ou deve passar a fazer-se concursos públicos para cada princípio activo, de modo a limitar o número de medicamentos disponíveis para venda e a aumentar o controlo cientifico e a confiança nos mesmos.

Dizer que a prescrição por DCI dá liberdade ao doente é ignorar que a liberdade implica informação. Já hoje se vê a confusão dos utentes com consequências como por exemplo a duplicação de tomas. Mesmo em relação ao preço, como é que se assegura que o utente pode escolher o mais barato? Como é que ele sabe? Quem é que consegue saber, para cada medicamento e a cada momento, quais os genéricos disponíveis e quais os mais baratos? Basta a pessoa que o atende dizer que há deste ou daquele e que não há do outro e acabou-se a liberdade do utente.

Passar o poder do médico para a pessoa que atende na farmácia não elimina a corrupção, só muda os intervenientes. Vejo semanalmente vários casos de trocas por medicamentos mais caros nas farmácias, mesmo com a cruz que em tempos teoricamente a proibia. A quem alega que "é preciso confiar no farmacêutico" dá vontade de responder "é preciso confiar no médico" e com isso justificar a manutenção do poder de prescrição tal como estava. Pura treta. Vale sempre a pena lembrar que as farmácias são estabelecimentos comerciais, com o natural objectivo de ter lucro, e que este advém do dinheiro que os utentes pagam pelos medicamentos, pelo que há um notório conflito entre o interesse do utente e o do dono da farmácia. Assim sendo, dizer que se está a pôr a escolha na mão dos utentes é mais que demagogia, é pura mentira.
Por fim, e em tom de aviso aos que tenham tido a paciência de ler isto, lembro que estando o Estado a comparticipar cada vez mais medicamentos em quantias absolutas e não em percentagem, quem vai pagar a diferença nas trocas por medicamentos mais caros será directamente cada utente comprador. Daí a falta de preocupação dos governantes com este problema, não lhes afecta os números.

Mais, e como disse hoje o bastonário da Ordem dos Médicos, se a ideia fosse passar para o mais barato sem outras considerações, bastaria uma lei que o obrigasse. Não faria sentido passar essa escolha para o farmacêutico ou para quem quer que seja. O utente informaria apenas se prefere comprar o medicamento prescrito, igual ao que tomava antes, ou mudar, nesse caso obrigatoriamente para o mais barato. 
Até parece simples.
(texto cedido por André Nóbrega)

domingo, 13 de novembro de 2011

O veredicto, Sidney Lumet (1982)

Está tudo no filme. A vida toda...


 Os ricos, os pobres, as ilusões, as mentiras.


A justiça. A lei. As preces. Os símbolos. 


A mulher. O amor e a traição.


O filme está a terminar. O que é que ela quer?


A sugestão do filme vem do devaneios.
 (LFB)
Porque não podemos ir de pijamas para a escola?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A confusão do acordo ortográfico

Quanto a essa confusão e à adopção, ou não, das novas regras de bem escrever (ortografia) cumpre-me, em forma de clarificação da consciência, registar o seguinte: continuarei - pelo menos até 2015, prazo estabelecido pela lei - a escrever como se escrevia bem antes da nova maneira de escrever bem. E é sempre verdade que com o tempo tudo passa; com tempo a todas as mudanças nos adaptamos, até às mais absurdas.
É muito estranho ler - o que mostra que o acordo não é apenas sobre como escrever, mas também, inevitavelmente, sobre como ler - frases como "notável seleção"; "o projeto de relançar" (a primeira leitura que faço é sempre projêto e só depois, ah, projecto com o "e" aberto); "aspeto cultural"; "maldito inseto", etc.
Mais estranho ainda é o facto de haver várias listas de palavras:
i) a lista das palavras que se pode escolher como escrever - pode-se escrever, por exemplo, "acupuntura" ou "acupunctura" "caráter" ou "carácter";
ii) a lista das palavras que não mudam - por exemplo "adepto"; "dúctil",
iii) a lista das palavras que mudam em Portugal mas não no Brasil - "aceção" em Portugal, "acepção" no Brasil;
iv) A lista de palavras que mudam em Portugal e que o Brasil admite: "cético" em Portugal; "céptico" admite-se no Brasil,
v) entretenha-se o leitor fazendo cruzamentos com outros países de língua portuguesa.

Notas:
1) a Fonte das listas é o artigo hipercrítico de Fernando Venâncio, "acordo ortográfico - visita guiada ao reino da falácia", revista Ler, nº105, Setembro de 2011, pp.36-40 e 88-89.
2) Aqui n'O Germe continuarei a escrever como sempre escrevi. As citações serão transcritas tal e qual como o autor as escreveu. Na escola, pelo menos até 2015, escreverei como sempre e aos alunos será dada toda a tolerância que a lei permite.
3) O NÃO que a seguir se lê vem da Iniciativa legislativa de cidadãos (ILC): aqui
Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!







(LFB)


Dulce Maria Cardoso

"(...) Só damos valor ao que não temos?
Ou isso ou uma coisa mais grave que é procurar fontes de infelicidade. Talvez tenhamos alguma vocação para isso. Se estivermos muito bem com o presente, não há mais nada a acrescentar. Na verdade, o bem-estar - e depois podemos falar da felicidade e de outros conceitos - é quase o antipensamento, e também quase a antivida. Tinha uma ideia mitificada da metrópole porque havia de tudo e era tudo melhor na metrópole. Coisas absurdas. Nós tínhamos as férias da escola de acordo com as da metrópole. Portanto, lá no tempo da cacimbo - com o tempo mais fresco - estávamos em casa, e no tempo quente estávamos nas aulas. Era tudo muito absurdo. Havia pessoas com alcatifa em casa, com lareira. Continuavam a fazer feijoadas, as pessoas ficavam todas encarnadas. Imitávamos a metrópole mas também tínhamos a sensação de que éramos portugueses de segunda.
(...)
Os retornados eram pessoas com mais espírito de iniciativa?
Não era tanto a iniciativa, pelos casos que depois fui conhecendo. Era mais o desespero, a fome. A fome desinquieta e desassossega muito.
A fome é uma força motriz?
Exatamente. Mais do que qualquer outra ideia. Depois temos a mania de romantizar. «Ah, a aventura.» Não é nada disso. São mesmo filhos para alimentar. Quando viemos para cá, é claro que a vida correu bem às pessoas que lá pertenciam aos serviços do Estado. Mas essa realidade não a conheço bem porque foram as pessoas que não ficaram nos hotéis. Para os retornados que conheço, de que posso falar e que foram os mais injustiçados, não foi assim. Os bem-sucedidos seriam bem-sucedidos em qualquer parte do mundo porque eram pessoas muito fortes e capazes. A maior parte não foi muito bem-sucedida, só que dos fracos não reza a história.
(...)
Vê-se mais como testemunha ou como interveniente, enquanto escritora?
Testemunha. Não gosto muito de ser protagonista.
Quando usei a expressão «interveniente» era no sentido de ser alguém que com essa proposta de reflexão pretende mexer de alguma forma no que a rodeia.
Não no sentido de o mudar. Quer dizer, vai-se mudando sempre. Cada ato nosso muda qualquer coisa. Acho, basicamente, que a história da civilização é a história da luta entre o bem e o mal. É a coisa maior que nos distingue. E depois temos este problema grave: o bem é antipensamento. Ou seja, não é dramático, não se consegue fazer o raio de uma ficção só com o bem porque é altamente monótono. Portanto, o mal aparece-nos com a sedução toda e aquilo é fantástico. Toda a nossa organização social são milénios a tentar proteger-nos do mal. O «não matarás», «não roubarás» e essas coisas todas são apenas uma maneira de vivermos em conjunto protegidos do mal que sabemos que há em nós. É aquela velha frase de S. Paulo: «Perdoa-me por não fazer o bem que quero mas o mal que não quero.» Por isso, é interessante pensar que se retirássemos o mal do mundo não tínhamos nada. Não tínhamos arte, romances, não tínhamos civilização sequer, como a concebemos.
Isso justifica um elogio do mal, quanto mais não seja pela necessidade cultural que temos dele.
Sim, não podemos prescindir dele. Eu, uma otimista, acho que haverá um dia em que poderemos prescindir dele, das suas formas mais puras pelo menos.
(...)
Há aqui uma homenagem e há também isto: o império, que teve cinco séculos, ruiu. Foi assustador ver o bicho em movimento. Aquela velha máxima que diz que nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, e que gostamos tanto de aplicar à matéria, nas coisas afetivas e sociais não funciona. Perdem-se coisas e ganham-se coisas.
(...)
Correu mal porque era já tarde demais, e depois porque não houve vontade política para que corresse melhor.
Não houve vontade política por parte dos protagonistas políticos da altura?
Exatamente. E quando digo isto nem falo dos colonos brancos. Estou a falar dos que ficaram. Deixámos um país já em guerra entre os movimentos de libertação. Nós, Estado português, favorecemos uma parte. Demos a independência a um. Que ainda lá está. Aquilo foi tão bem dado que nunca mais saiu de lá. Ao menos deixámos uma coisa duradoura. Agora, consigo perceber o racismo que havia lá e muitos negam. Mas só me interessa pensar nestas coisas fazendo uma ponte com o presente. É relativamente fácil prendermo-nos àquilo que já não podemos mudar e criticar, culpar, quando neste momento estão a acontecer coisas muito semelhantes, embora não da mesma magnitude. Embora se possa dizer que a morte de um homem é tão trágica como a morte de cem milhões. Pode dizer-se que isto é uma versão lírica. Estamos viciados numa questão de escala. Neste momento Portugal passa por uma situação muito semelhante.
Está a falar de impor sacrifícios a um grupo social em nome de uma mudança histórica qualquer?
Sim. Em nome de um objectivo. Não pode ser. Cada um de nós vale a mesma coisa. Nós não somos peças de uma engrenagem em que uns vão para carne picada para salvar os outros. Não se pode dizer que há democracia enquanto existir sequer esse conceito ou essa possibilidade. Vamos ter um cartão de pobre, não é?
É o tipo de assistencialismo que lhe faz recordar o assistencialismo do IARN?
Sim. Era terrível. Havia retornados que preferiam ter fome a apresentarem-se com o cartão.
Isso é muito sensível, no seu romance, sobretudo na questão das roupas.
Sim. Havia aquela coisa de que os pobres não têm de ter gosto, não têm de parecer bem, precisam é de estar tapados. A pessoa em situação de pobreza fica sem necessidade alguma: de poder escolher o que come, de poder vestir-se. Continuamos a fazer o mesmo.
(...)
Voltou a Angola?
Não. E não penso voltar.
É uma recusa?
É, por várias razões. Já pareço aqueles políticos que têm sempre várias razões. Por um lado, acho perigoso mexer numa série de memórias.
Perigoso para a sua saúde pessoal?
Sim. Não sei como reagiria. Em termos pessoais não me interessam picos de emoção. Canalizo tudo para o que escrevo e depois gosto de uma coisa mais apaziguada. Mas é também porque o regime de Angola não é um regime aconselhável. Custa-me - para dizer o mínimo - perceber que Angola se tornou uma oportunidade de dinheiro e que toda a gente esteja contente porque vem para cá dinheiro angolano. Aquele dinheiro é criminoso. Temos de ter consciência disso. Não é uma sorte eles estarem a investir em Portugal, é uma vergonha. Isto tem de ser dito. Só pobres sem qualquer dignidade - como nos tornámos - podem achar isto bem. O Presidente de Angola está sempre nas listas dos homens mais corruptos do mundo. E nós fazemos negócios com ele e dizemos que é uma sorte? Mas em que raio de povo nos tornámos? Nós não somos isto. Os portugueses não são isto, o que é outra coisa.
(...)"

Entrevista de Carlos Vaz Marques a Dulce Maria Cardoso, revista Ler, número 106, Outubro 2011, pp. 29-32.

RUY BELO (1933-1978)

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM CRIANÇAS

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy  Belo, Homem de Palavra(s) (1970).

sábado, 29 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Novilíngua (2)

Secretário de Estado da Solidariedade Social ao Público:
"Por esse motivo, acrescentou, 'a sociedade portuguesa, através destas instituições, dos voluntários profissionais do sector e dos portugueses com a sua generosidade, são os parceiros' com que o Estado conta para que 'em conjunto' possam 'ultrapassar os obstáculos sociais que existem pela frente'.'" 


[Artigo 3º] A qualidade de voluntário não pode, de qualquer forma, decorrer de relação de trabalho subordinado ou autónomo (...).
[Artigo 6º] O princípio da complementaridade pressupõe que o voluntário não deve substituir os recursos humanos considerados necessários à prossecução das actividades das organizações promotoras, estatutariamente definidas. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011


Termos & Condições

                           (DO)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Prioridades

I.

II.
"Cerca de 43 milhões de pessoas estão em risco de carência alimentar na Europa e não têm meios para pagar uma refeição completa e 79 milhões vivem abaixo do limiar de pobreza, indicam dados do Programa Europeu de Apoio Alimentar. As instituições em Portugal temem os efeitos dos cortes que o programa vai sofrer. (...) Os alimentos distribuídos pela Segurança Social às instituições vêm deste programa europeu que, em 2012, terá um orçamento para Portugal de 4,5 milhões de euros, menos 15,5 milhões que em 2011." (daqui)

III.
"(...) atribuição do prémio de 100 mil euros por jogador se Portugal ganhar 'a essa potência do futebol que é a Bósnia Herzegovina (...)'." (daqui)


De acordo com os melhores especialistas, o Sol não deixará de nascer amanhã.
(DO)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Os filósofos e o nazismo (4)

"Ainda que não seja mencionado, Johann Gottlieb Fichte era, de facto, o pensador mais próximo de Hitler e do nacional-socialismo, tanto em termos de tom, como em termos de espírito e de brio. Ao contrário de Schopenhauer, homem dado à interioridade e herdeiro da tradição livresca, ou do débil e prostrado Nietzsche, Fichte era impertinente e desafiador. Em 1808, e numa Berlim ocupada pelas tropas francesas, Fichte apelou à sublevação dos Alemães contra a opressão estrangeira nos seus memoráveis Discursos à Nação Alemã. Na véspera da batalha decisiva contra Napoleão, em Leipzig, Fichte apareceu a liderar os seus alunos, armado e pronto a lutar. Consta que era um orador hipnótico, capaz de deixar as audiências "presas" às suas palavras. "À acção! À acção! À acção!", terá ele apelado um dia- "Que é por isso que estamos aqui."
Tal como Fichte, Hitler apelava ao "derrube da elite política" através da sublevação popular. Fichte falava em termos de uma Volkskrieg, ou guerra do povo. E, tal como Fichte, Hitler ambicionava a unificação da dividida nação germânica. Ao pôr em causa o diálogo político próprio da democracia parlamentar e ao apelar ao diálogo directo com o povo germânico, Hitler assumia uma posição próxima da retórica fichtiana e evocava os Discursos à Nação Alemã.
Mais pródigo de consequências, Fichte foi um dos obreiros da ideia da excepcionalidade alemã. Defendia que os Alemães eram únicos entre os povos da Europa. O seu idioma não tinha origem no latim mas sim numa distinta língua teutónica. E os Alemães não só falavam de uma forma distinta dos demais europeus, como pensavam, acreditavam e agiam de modo também distinto. Fichte defendia que só uma língua alemã purificada, não corrompida nem pelo francês nem por quaisquer outros estrangeirismos, poderia dar expressão pela a um pensamento germânico puro. Todos os esforços desenvolvidos pelas diferentes organizações nazis para expurgarem a língua alemã dos elementos que lhe eram estranhos assentavam neste preceito fichtiano, que Hitler consubstanciava sempre que se punha a divagar em torno da palavra Führer. "O título de Führer é de entre todos o mais belo, porque emerge directamente do nosso próprio idioma", chegou a afirmar, fazendo notar com satisfação que apenas a nação alemã se podia expressar em termos de "meu Führer."
Fichte era também decididamente um anti-semita. ele acreditava que os judeus seriam um "Estado dentro do Estado" e, como tal, tinha-os como uma ameaça permanente à unificação alemã. Propunha que a Europa se livrasse dessa ameaça através de um Estado judeu na Palestina. Ou, em alternativa: "Cortando-lhes as cabeças numa noite e colocando-lhes sobre os ombros outras novas, que não deveriam conter uma única ideia judaica."

(Ryback, Timothy, A Biblioteca privada de Hitler - Os livros que moldaram a sua vida, (tr. I.L.S.) Civilização editora, 2011, pp.133-134)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Hoje de manhã, na rádio, uma desconhecida deputada pelos Açores à Assembleia da República afirmava que todos os açorianos anseiam pela continuidade do modelo actual de programação da RTP Açores.
Eu, sendo açoriano, venho afirmar que não só não anseio pelo continuidade da RTPA como me parece que nenhum governo deveria ter qualquer poder sobre as televisões; o que equivale a dizer que a televisão deveria ser privatizada. Não é isso que está para acontecer, mas sim a redução para quatro horas de programação realizada nos Açores, o que é mais do que suficiente.
O grande problema para os políticos açorianos não é, como agora apregoam, o governo "lá de fora" estar a pôr em causa o valor imprescindível da RTPA para a prestação do serviço público dos meios de comunicação. Se assim fosse, seria natural vê-los também procurar saber qual o nível de audiências da RTPA. E assim esclarecer as pessoas sobre o valor real desse dito serviço público. Mas ninguém quer saber do nível de audiências da RTPA, e isso talvez se deva ao facto de  ninguém ver a RTPA - a não ser a população mais isolada, mais pobre e mais envelhecida e, por isso, mais facilmente influenciável que, desejando saber qual o tempo que irá fazer amanhã, acaba por ver as últimas inaugurações e as últimas ideias brilhantes dos cesarianos sempre com umas cores a dançar em pano de fundo.
O grande problema é que um dos mais eficazes instrumentos de controlo político deixará de estar disponível para os governantes exercerem a sua manipulação. Sobre isto basta ver o tratamento indigno que foi dado, por parte dos governantes açorianos e por parte dos jornais locais, aos representantes da Entidade reguladora para a comunicação Social quando, ainda há bem pouco tempo, cá estiveram a dizer que havia intromissões políticas no tratamento dos noticiários televisivos.
Até hoje a RTPA tem servido para veicular as mensagens do partido no governo e para mascarar os problemas da sociedade. Veja-se como ex-funcionários da RTPA foram parar a assessores do governo. Tem servido para - com a desculpa do serviço público e do valor cultura açoriana para os próprios açorianos - passar muito dinheiro para o bolso de poucos, alguns deles reformados da própria RTPA. Agora que o dinheiro está a acabar, uns dirão que já não querem mais, que é tempo de dar lugar aos mais novos. Outros, clamarão pelas virtudes da TV pública. Por mim, podem reduzir já a emissão que ninguém dará por isso.

(LFB)